terça-feira, 22 de novembro de 2011

Consideração


-Sabe o que mais me deixa chateada? - perguntei transtornada.
Ela ficou calada, esperando minha resposta.
-Saber que eu sempre estive lá quando você precisou. Que te abracei e enxuguei suas lágrimas enquanto você se desmanchava em prantos. Eu estava lá quando você não aguentava mais sua vida e te impedi de fazer besteira. Eu te impedi de se matar!
Dei um sorriso sarcástico por causa do olhar pasmo que ela me lançava e, voltando a ficar séria, respirei fundo.
-Eu estava com você no seu aniversário e te fiz sorrir com minhas brincadeiras. Se você precisasse da minha presença, bastava uma mensagem e eu iria imediatamente te encontrar. Mas aí você encontrou uma criança para criar -diga-se "namorado"- e parece que esqueceu que existem outras pessoas no mundo. Parece que esqueceu que você tinha amigos. E sim, tinha no passado, porque sinceramente, eu não me considero mais sua amiga. Isso é o que mais me chateia: a simples falta de consideração para comigo.
Minha raiva era tanta, que virei de costas e fui embora.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Você


Você acorda e percebe que não deveria ter aberto os olhos naquela manhã. Sente que nada dará certo naquele dia em específico e tenta dormir novamente. Vã tentativa. Você se mexe na cama várias vezes até que desiste e levanta. O banheiro parece distante e escuro, mas você escancara a porta e, ligando a torneira, joga água no rosto tentando acordar completamente.
O dia, nublado, condiz com seu pensamento ao acordar, porém não adianta mais voltar para a cama. Você procura lutar com a vontade e então desce para tomar café. Ela não está mais lá para fazer seu café. Parado, olha para a cafeteira e lembra do sorriso que ela sempre lhe lançava, o sorriso mais lindo que vira em toda a sua existência. Mas em seguida, recorda das lágrimas que caiam dos olhos dela na última vez que a vira.
Balança a cabeça negativamente e faz seu café, descontente. Arruma-se para ir ao trabalho e sai com o carro. A rua está deserta mas você nem nota que não há nenhuma alma viva caminhando. Ninguém. E então, praticamente no meio do caminho, depois de quase meia hora de viagem, lembra que é feriado nacional e, portanto, não haverá expediente.
-Meu Deus... - murmura para si mesmo.
Você respira profundamente e retorna para casa, por outro caminho diferente. Era ela que estava em seu pensamento. Perdera-se no tempo completamente depois que ela se foi e só deixou lembranças. Recorda quando chegou em casa naquele dia e a viu retirando todas as coisas que lhe pertenciam do armário. O vestido vermelho, que você tanto censurou mas que adorava secretamente por contrastar com a pele branca e macia que ela tinha, jogado numa das malas. As lingeries que ela usava para lhe seduzir e que você amava tirá-las devagar nos momentos entre quatro paredes. E as lágrimas novamente.
Você sente vontade de chorar, entretanto contêm o anseio. Finalmente estaciona o carro em sua casa e, com má vontade, entra e se encaminha para seu quarto. A presença dela parece cada vez mais viva nos cantos de sua residência, mas você não consegue se desfazer de nada. Absolutamente nada.
Ao entrar, sua cama te chama veemente e, com extrema ânsia, você se joga, escondendo o rosto no travesseiro. Não conseguindo mais se segurar, chora como uma criança que acabara de perder o melhor doce de sua curta vida. Depois de muito tempo, desde que ela se fora, você se permite fazer isso, somente porque ela não está mais em sua rotina, em sua vida, onde você precisa...
Ainda chorando, você cai no sono, sentindo ainda mais a falta de sua mulher.