quarta-feira, 27 de junho de 2012

Violoncello


-Essa música é dedicada a uma pessoa muito especial que se encontra aqui esta noite. Minha música favorita.
Você começou a tocar uma música romântica que não consegui descobrir de imediato. Adorava o jeito que tocavas violoncelo, fechando os olhos e sentindo a música surgir através de seus dedos. Te ver concentrado ao tocar era muito lindo. No refrão, você me olhou e abriu seu maior sorriso. “With or without you” dizia em sua parte principal, e eu me arrepiei ao perceber o que tocavas. Aquela era uma de minhas músicas favoritas e não somente pela linda letra, mas também por causa da melodia perfeita. Seus lábios começaram a se mover e vi que acompanhavas a melodia em tom mudo. “I wait for you”. Comecei a lagrimar e um leve arrepio passou por mim. Estavas tão lindo em sua roupa de gala e com o cabelo todo desgrenhado por ficar mexendo a cabeça com cada nota que tocavas, que eu começava a querer te arrancar dali e te roubar somente para mim. A música terminou e você levantou, curvando-se em agradecimento as palmas que te reverenciavam. Então se aproximou de onde eu estava e enxugou uma lágrima que escorria lenta em meu rosto.
-Foi lindo. – disse sorrindo e chorando ao mesmo tempo. – Foi perfeito.
Você sorriu e segurou minha mão, dando um leve beijo em meus lábios. E eu te segui, extasiada com sua bela declaração.


sábado, 23 de junho de 2012

Âmbar - Capítulo 2


Naquele mês, nós dois não utilizamos somente o domingo como nosso dia especial, mas praticamente todos em que conseguíamos tempo, então meio que deixamos de lado os assuntos da escola. Em seu último dia comigo, fomos de carro até uma trilha que alguns turistas amavam fazer e aproveitamos que o dia estava ensolarado. Acho que não preciso mencionar que era dia de semana e que faltamos a escola sem avisar ninguém com antecedência, mas para nossos pais não chamarem a guarda nacional por acharem que algo tinha nos acontecido, deixamos bilhetes e simplesmente fugimos. A trilha não era difícil e em quase uma hora já havíamos chegado ao pedaço mais lindo da praia inteira, pela água ser bem cristalina e a areia extremamente branca. Passamos a manhã inteira e parte da tarde brincando na água e sentados à sombra de uma árvore, até porque eu não podia tomar muito banho de sol por ser quase transparente. Um dos apelidos que Thiago me deu era justamente sacaneando com a minha cor: “branquela”. Mas o que começou com uma brincadeira estúpida virou uma demonstração de carinho.

Antes de voltarmos para a civilização tivemos mais um daqueles momentos que vez ou outra nos aconteciam. Nosso último banho na praia foi regado a mais um beijo... E eu posso dizer com toda a sinceridade que aquele foi o melhor beijo de toda a minha vida. Ele tinha algo a mais, algo simples mas que me fez querer ficar o resto do dia somente beijando-o. Só que ele me olhou e respirou profundamente, meio como se não tivesse que ter feito aquilo.
-Vamos para casa, ainda tenho uma surpresa para você. – disse com um olhar meio sedutor, me fazendo rir. Então voltamos para a cidade.
No caminho de volta, conversamos sobre coisas triviais tentando afastar ao máximo a sombra do fim, mas houve um momento em que ficamos calados e eu olhava para a paisagem que passava rapidamente em minha janela. Minha mente viajou por todos os momentos que passei com ele e percebi que poderia perdê-lo para sempre.

À noite saímos para jantar. Thiago sabia que eu não gostava de coisas exageradas, então fomos a uma cafeteria e fiquei surpresa ao ver que não havia mais ninguém.
-O dono é meu amigo e, bem, hoje essa cafeteria é nossa. – sorriu, segurando minha mão, ao ver minha cara surpresa.
Uma leve melodia tocava no local e havia somente uma mesa arrumada com velas. E só então eu pude perceber como Thiago estava tão lindo. Ele puxou a cadeira para mim e, ao sentar, beijou minha bochecha murmurando em meu ouvido:
-Você é extremamente linda. – e com um sorriso sentou em minha frente.
Uma pessoa veio até nossa mesa e encheu nossos copos com água. E depois, simplesmente estávamos a sós. Ainda não conseguia falar pois tudo aquilo era totalmente maluco para mim. Percebi que meu coração pulava dentro do peito de uma maneira diferente, de um jeito que era bom.
-Não vai dizer nada? – Thiago me perguntou ainda sorrindo.
-Eu... Não sei. – respondi sorrindo com certo nervosismo. – Por que isso? – perguntei.
-Porque você é especial. – disse bebendo um pouco de água.
Eu só ri, olhando-o com carinho. Ele nunca havia levado uma de suas garotas para jantar e, para completar, eu nunca fui uma de suas garotas. Thiago sempre ficava com uma garota diferente todas as semanas e nunca com a mesma duas vezes. Eu fui a primeira dentre tantas que ele tratou de maneira diferente e que ainda era sua amiga.
-Diana, o real motivo de estarmos aqui hoje não é o fato de eu ir embora amanhã. – disse-me depois de jantarmos. – Existem coisas sobre mim que não compreendo e outras que prefiro não compreender, e você é uma das que preferia não compreender.
-Como assim? – perguntei, me apoiando na mesa para ficar mais perto dele. Thiago ficou calado somente me olhando, até que levantou e se ajoelhou ao meu lado.
-Você é diferente. – disse com um sorriso. – Diferente de todas as outras. Você pensa e age de modo diferente e sei que foi por isso que me tornei seu amigo. Mas naquela segunda vez que nos beijamos tudo ficou esquisito porque eu não entendi como você conseguiu fazer com que eu ficasse nervoso. – e ele riu. – Eu, Thiago Freitas, fiquei trêmulo ao beijar uma garota e você sabe a fama que adquiri com os anos. Lutei e relutei contra eu mesmo, só que não consegui. E depois que meu pai me avisou que íamos embora, a ficha caiu. – Thiago enfiou a mão no bolso da calça e tirou uma caixinha que logo abriu, revelando um pequeno pingente de âmbar num simples fio preto. – Eu sei que você não gosta de coisas chamativas e toscas, então eu trouxe a pedra de âmbar que minha avó me deu anos atrás, só fiz mandar colocar o pingente e conseguir esse cordão. – e levantou, indo colocar o cordão em meu pescoço. Thiago estava me surpreendendo tanto nos últimos dias que era até complicado de me expressar. – Segure seus cabelos, minha anomalia. – disse rindo.
-Idiota. – respondi também rindo. Aquele apelido besta surgiu depois de uma aula de biologia em que o professor explicou que pessoas ruivas eram anomalias genéticas. Mas eu o deixava me chamar de “minha anomalia” pelo fato dele amar a cor de meus cabelos. E de usar o pronome "minha".
-Pronto. – disse após colocar o presente e me olhar. – Ele combina com você.
Ficamos um minuto em silêncio e logo outra doce melodia começou. Thiago segurou minha mão e eu levantei, abraçando-o imediatamente. Começamos a andar ainda abraçados e rimos. Eu o olhei e segurei seu rosto entre minhas pequenas mãos, grudando meus olhos nos dele. E logo em seguida, minha boca na sua. Aquele era o momento mais feliz de minha curta e miserável vida.
-Eu te amo... – Thiago sussurrou em meu ouvido depois de nosso beijo. – Te amo de verdade. – Afirmou me fazendo sorrir. Porque eu o amava também, com uma intensidade sem igual.

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Carícias


Ela acariciou meus longos cabelos enquanto olhava no fundo de meus olhos. Eu não era a criatura mais perfeita da face da Terra, tinha erros que valiam por cinco vidas, marcas eternas, vergonhas para se esconder o rosto de todas as pessoas, porque elas conseguiriam enxergar através de mim. Mas ela, apesar de ver tudo o que eu tinha de ruim, ainda estava comigo. Seus pequenos pés encostaram nos meus e estavam tão gelados que a puxei um pouco mais para perto de mim, o que a fez dar um sorriso estonteante. Toda a minha maldade se esvaiu com esse gesto. A pele macia de suas mãos passeou por meu rosto, arranhando minha barba mal feita, o toque tão suave fazendo com que eu ficasse com todos os pelos de meu corpo eriçados. Seus dedos contornaram meus olhos e chegaram a minha boca, desenhando a linha de meus grossos lábios. Eu queria que ela me beijasse naquele exato momento, que puxasse meu corpo num gostoso abraço, mas ela continuou as carícias com a ponta dos pequenos dedos. Apesar de minha vontade de agarrá-la e ceder a certas vontades, eu fui obrigado a me conter, tornando imediatamente escravo de suas vontades. Ela que fizesse o que bem entendesse. Poderia me abandonar, me bater, me xingar de nomes inimagináveis. E juro que não compreendia o por quê de estar tendo a regalia de sua presença, de seu pequeno corpo tão próximo do meu, de seu carinho. Sua mão continuou com os doces movimentos, descendo pelo meu pescoço e passando lentamente por meu peito, até chegar em uma de minhas mãos. Puxando-a para seu delicado rosto, ela sorriu novamente e fui acometido de múltiplos calafrios. Vagarosamente deslizei as costas de minha mão por sua bochecha, sua expressão de satisfação me deixando louco. Ela tornou a olhar minha alma através de meus olhos e roçou o pequeno nariz em minha boca. A mão que ainda estava em sua face imediatamente passou para a nuca, fazendo-a soltar um leve suspiro. Essa era uma das coisas que ela mais adorava. Se aproximou mais, ficando em cima de mim e sorriu antes de colocar os lábios sobre os meus. Eu a amava. Sorrimos plenos de felicidade e ela encostou sua cabeça em meu peito. Aos poucos sua respiração foi se estabilizando. Eu acariciei seus longos cabelos e sorri. Porque ela estava comigo apesar de toda a merda que eu era.

sábado, 16 de junho de 2012

Anjo


Eu vi um anjo.
Ela dava passos em minha direção e eu não sabia o que fazer. Fiquei estático de tanta beleza. Os cabelos claros balançavam suavemente com a brisa da tarde, o rosto sem maquiagem revelando pequenos sinais graciosos na pele. Os lindos olhos verdes me fitaram e então fiquei perdidamente apaixonado.
Sim, ela era um anjo. Sua voz doce era como o som da harpa harmoniosa em meus ouvidos e quando ela me disse um pequeno e breve 'oi', percebi que já a amava. Oh Deus! Que lindo anjo! Quando ela sorriu, senti o coração querendo sair pela garganta, o estômago em seus movimentos peristalticos cada vez mais intensos. As lindas marcas de expressão em seu rosto por causa do sorriso a deixavam extremamente... Oh sim, meu retrato da mais bela perfeição. E a perfeição começou a andar ao meu lado. Quis segurar sua pequena mão, mas me contive por medo de que esse simplório gesto a afastasse dali. No momento seguinte quis provar de sua boca, sentir os lábios macios de encontro aos meus. Mas hesitei novamente por medo. Pela primeira vez em minha vida vi um anjo e não poderia perdê-lo por causa de meras vontades carnais. Ela estava ali, comigo, e isso era magnifico.
Eu vi um anjo. E como todo anjo ela simplesmente voou, foi embora e me deixou ali com a frágil lembrança de sua pele, seus olhos, seu sorriso... Ela era um anjo e já não sei se agradeço por ter levado meu coração consigo.

quinta-feira, 7 de junho de 2012

Ácida Brancura


-Abra os olhos. - murmurou tirando as mãos de meu rosto. Minha vista aos poucos foi se adaptando a claridade do local a medida que meus olhos se abriam. Estava em seu quarto e havia rosas brancas por todos os lados, fazendo com que o perfume que exalava fosse magnífico. Ele sabia que eu amava rosas brancas e que sempre quisera ganhar pelo menos uma de qualquer pessoa. Naquele quarto tinham tantas flores que não consegui parar para contá-las. Dezenas, dúzias de buquês... Comecei a lacrimejar e meu mais belo sorriso veio à tona.
-Coisas especiais para pessoas especiais... - disse ao meu ouvido. Um gostoso arrepio de felicidade percorreu minha espinha e no momento seguinte estava agarrada em seu pescoço, beijando-o. Em meio aos beijos começamos a rir. Tudo era lindo quando eu estava com ele. As brincadeiras, os risos, os beijos e até mesmo algumas lágrimas.
-Obrigada, meu lindo. - agradeci radiante. - Obrigada por tudo o que fazes por mim. Obrigada por...

E acordei. Minha vista aos poucos foi se adaptando a claridade do local a medida que meus olhos se abriam. Meu quarto nunca pareceu tão solitário depois de um sonho. Respirei fundo e olhei para o teto. Não sei ao certo por quanto tempo fiquei assim, até que levantei e me arrumei para sair. E encontrar o garoto que vagava em meus sonhos com outra pessoa...