domingo, 14 de outubro de 2012

Máscaras


                A pior expressão de se representar no teatro é a de felicidade. Dar um sorriso sem mostrar falsidade é algo complicado e só quem é bom no que faz, consegue evoluir. No meu rosto sempre existe um sorriso, eu sempre aparento estar feliz. A máscara teatral da felicidade raramente cai, mas é difícil mantê-la sempre, de tempos em tempos fico num estado de torpor que ninguém além de mim enxerga, porque eu só deixo isso acontecer a noite, no meio do escuro, onde a visão é limitada. Somente minha cama e meu travesseiro, companheiros de longa data, conhecem esse meu lado, porque eles são os únicos que merecem, os únicos que me aturam calados, sem tentar me atrapalhar ou ajudar, eles só estão lá para o que der e vier. Mas as vezes a felicidade não é somente uma mascara, ela está presente na mais linda forma; ela existe dentro de mim. Momentos, lembranças, palavras fazem com que acabe dando um sorriso sincero e verdadeiro, um sorriso envergonhado e raro. O sorriso que estou guardando para você. Enquanto espero, a máscara ainda existe presa, fixa, aguardando o dia de cair completamente e se despedaçar no chão.


quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Chuva de lágrimas


Fantasmas antigos retornaram ontem à noite. Fantasmas que venho lutando a anos, ignorando-os por completo. Não consegui contê-los, eles foram mais fortes do que eu. E novamente caí em prantos, como uma misera criança. A pose de macho alfa caindo e mostrando a mulher frágil que existe, que sempre existiu escondida de tudo e de todos. Mas ontem não. Ontem minha máscara caiu, mas ninguém além de mim a enxergou. Prender a dor só piorou ainda mais a situação, não conseguia pensar com tanta coisa atolada em minha cabeça. E tudo por causa de gestos, de gostos, de música... Mas as lágrimas ainda persistem como numa chuva torrencial, me engolindo inteiramente, sem dó nem piedade. Elas não querem parar...
Você virou um fantasma que ainda me persegue. E eu te odeio por isso.

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Âmbar - Capítulo 7

Segundo presente da Luana Mayra, atrasado mas chegou Q



Desejei que o dia em que o conheci nunca tivesse existido. Porque aquele maldito momento desencadeou toda uma maldita perseguição. Como se não bastasse Felipe estar nas aulas de teatro, também estava nas de canto e xadrez. E como aquele filho da mãe mesquinho sabia das minhas aulas extracurriculares ainda era um mistério que iria adorar descobrir. O pior de tudo era que eu não queria largar nenhum dos três: o teatro e o canto eram minhas paixões e não mereciam ser abandonados por causa dele; já o xadrez era um hobby que me deixava ocupada aos sábados pela manhã.
Só que, com o tempo, aprendi a conviver com sua indesejável presença em quase todos os lugares, às vezes nossas discussões eram inevitáveis, mas o melhor de tudo foi notar que meu ódio por ele conseguia substituir a saudade que sentia de Thiago.

Todos, tanto na escola, quanto nos cursos, já sabiam que Felipe e eu não nos dávamos bem. Durante as aulas, sempre que o professor fazia uma pergunta, trocávamos farpas. Principalmente quando um de nós respondia errado. Percebi que Felipe era um garoto muito inteligente, o que me motivou a desafiá-lo no xadrez. O desgraçado aceitou com uma condição: cada peça importante perdida valeria uma pergunta que deveria ser respondida sem mentiras. Nada mais justo, afinal, tinha algumas perguntas que precisava saber a resposta.
No sábado esperamos que a aula oficialmente terminasse para começarmos nosso jogo. Não havia mais ninguém na sala e eu, pelo menos, já estava afoita. Em silêncio, ajeitamos nossas peças no tabuleiro e comecei por estar com as brancas. Nossos peões quase foram extintos. Então ele levou meu primeiro cavalo.
-Parece que esse jogo vai ser emocionante. - disse com um sorriso. - Quem te deu essa pedra de âmbar? - perguntou sem rodeios, como se estivesse preparado há tempos para perguntar-me.
-Um amigo. - respondi curta.
-Qual o nome?
-Uma pergunta para cada peça. - disse com um sorriso irônico, fazendo minha próxima jogada. Levantei os olhos do tabuleiro e vi que Felipe tinha o olhar fixo em mim. A próxima peça a sumir foi dele. - Por que você anda me perseguindo? - disparei.
-Pode não parecer Diana, mas você tem um “quê” de mistério. Essa sua carinha inocente... Gosto de pessoas assim. - respondeu.
O jogo foi rolando até que estávamos chegando ao fim, exaustos. Felipe soube manipular suas perguntas, fazendo-me responder por que bebera até ficar porre, ou seja, contando-lhe a história de Thiago, descobrindo instantaneamente a pessoa que me dera a pedra de âmbar. De quebra, descobri que ele era novo na cidade e que seu novo hobby era me perturbar. Ele tinha prazer em fazer isso. Faltava somente uma peça para ele descobrir o por quê de o odiar -a cor dos olhos- quando eu lhe dei um xeque sem escapatória.
-Parabéns, você ganhou o jogo. - disse, relaxando na cadeira.
-Não Felipe, ainda não ganhei o jogo. - disse com firmeza. - Você arranjou uma inimiga que não conhece direito. Essas perguntas feitas não respondem nem metade de quem eu sou. Podes me perseguir na escola, nos cursos, em qualquer lugar, que ainda vais ser o cara mais insuportável do mundo. Suas justificativas de porque me persegues não me servem de nada. - e eu sorri por ver o jeito sério como ele me olhava. - Xeque-mate, Felipe. - movi minha Rainha, derrubando seu precioso Rei. - Este é apenas o fim do começo. - e levantei saindo da sala e deixando-o para trás.

Fiquei extremamente feliz com a cara que Felipe fez ouvindo minha raiva emanar através de palavras calmas. Passei todo o meu final de semana alegre comigo mesma que até meus pais estranharam. Eu merecia aquele sentimento depois de meses de melancolia. Contudo a maior alegria que senti, foi chegar segunda-feira, na sala de aula, e ver Felipe sem aquele sorriso de sempre, me olhando com certa duvida. Fio minha vez de sorrir para ele com muita ironia. Laura percebeu que algo estava acontecendo e imediatamente indagou.
-Nós tivemos uma pequena conversa. - respondi sendo vaga, deixando-a completamente curiosa. Se bem que, acho que essa conversa mais pareceu um monólogo.  Risos para mim.

A aula de teatro que dei ao primeiro ano foi tão boa que todo me elogiaram ao final, até mesmo Felipe. E como sempre, ele foi o último a ir embora. Eu estava no outro extremo da sala quando ele começou a falar.
-Me perdoe pelo jeito que venho lhe tratando, mas é que eu sempre trato as pessoas assim.
(Felipe pedindo desculpa? Espera, repete!) Continuei calada, arrumando minhas coisas. Era melhor ignorar.
-Diana. - me chamou e instantaneamente o olhei. Não consigo ignorar as pessoas por muito tempo, droga. - Sabe, eu amo a cor do seu cabelo. - e sorriu, só que foi um sorriso normal, me deixando meio desconcertada. Ele começou a se aproximar de mim e cometi o erro de tentar me afastar, o que fez com que me prendesse contra a parede mais uma vez, a sensação de deja-vu pairando. - Você é linda. - murmurou, a respiração entrecortada. A coisa estava ficando estranha e eu, morrendo de medo. Como se isso não pudesse ficar pior, Felipe se aproximou tentando me dar um beijo. Eu me mexi desconfortável e levantei a mão para dar um tapa naquela linda face cínica, só que ele segurou meus braços contra a parede. Naquele momento eu já estava pálida de nervosismo. Com os braços atados, tentei dar-lhe um chute entre as pernas e, não sei como, ele conseguiu prender-me completamente. Eu estava totalmente ferrada.
-Idiota! - disse com raiva.
-Amo quando você fica assim... - murmurou, beijando-me. Que vontade de enchê-lo de socos! Mas ao mesmo tempo... - Anda Diana, eu sei que você também quer... Abra a boca. - sussurrou em meu ouvido e voltou a minha boca, dando leves beijos em meu pescoço e no contorno de meu queixo. Felipe tinha razão: eu queria e muito, sem falar que estava com tanta vontade de agarrá-lo, que toda a raiva tinha ido embora. Ele tinha boa presença, sem contar no fato de estar a meses sem ficar com ninguém. - O que vai ser, Diana? - perguntou antes de me beijar de novo. Era tudo ou nada. E eu correspondi o beijo, fazendo com que Felipe me soltasse, para agarrar-me em seu pescoço logo em seguida.

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Âmbar - Capítulo 6

Presente de aniversário para Luana Mayra ~♥



Passei o domingo inteiro na cama. Não quis sair, tomar banho ou até mesmo comer. Meus pais não paravam de entrar e sair de meu quarto, o que me irritou a ponto de trancar a porta e gritar para que me deixassem em paz. Eu nunca em minha vida gritara ou desobedecera meus pais, mas naquele momento queria um pouco de privicidade para ficar sozinha com meus pensamentos.
Não compreendia como Thiago pudera ser tão cruel em suas palavras. Estava chateada com tudo e principalmente por ele não ter nem ao menos dito uma palavra de carinho. Por que ele mudara seu jeito martelava minha cabeça. É outra garota, dizia uma voz, enquanto eu negava com palavras como se estivesse conversando com alguém em meu quarto. Para completar, minha dor de cabeça estava mais forte e eu sentia que a qualquer momento eu iria explodir. Fui ao banheiro e peguei dois comprimidos para enxaqueca. Lavei o rosto e respirei fundo, tentando estabilizar-me. Voltei para a cama e esperei o remédio fazer efeito. Dormi até o dia seguinte.

Acordei na segunda envergonhada. Não podia mais deixar que Thiago me abalasse daquele jeito. Se era isso o que ele queria, já estava feito.
Levantei da cama, tomei banho e me arrumei para a escola. Na mesa de café, dei um beijo em meus pais e pedi-lhes desculpa pelo meu jeito melancólico. Acho que deixei os dois meio pasmos com minha mudança de humor. Já na escola, quando entrei na sala, avistei Felipe e andei em sua direção. De repente eu ouvi o silêncio. Provavelmente todos já sabiam o quanto eu não ia com a cara dele ou o que havia acontecido.
-Felipe, quero te pedir desculpas por te deixar preocupado na sábado, mas saiba que esse pedido não muda o ódio que sinto. - disse, e sem esperar resposta, me afastei. Todos na sala me olhavam. Sentei ao lado de Laura, que me olhava meio assustada.
-O que foi isso? - perguntou-me.
-Um pedido de desculpas que não muda os fatos. - respondi com um sorriso. Arrumei-me na carteira e olhei para a direção da mesa de Felipe, que estava com os olhos grudados em mim, sua expressão séria e confusa. Fio minha vez de dar um sorriso irônico. Pus os olhos em meu livro e esqueci-me do que havia acontecido.

Segunda era dia de dar aula aos novatos do teatro e estava tão animada com isso, que cheguei meia hora antes do começo. Meu professor me deu dicas de como proceder com as aulas iniciais e pediu para ter calma e pulso firme. A aula começou e me senti extremamente feliz por perceber que levava jeito pra ensinar a linda arte da dramatização.
No meio da aula a porta se abriu e um garoto alto entrou. Apesar da pouca iluminação, percebi que era Felipe que me olhava da entrada. Disse para a turma continuar e não perder o foco quando algum idiota chegasse atrasado. Ouvi alguns risos abafados e fui em sua direção.
-Você está muito atrasado. - disse, tentando ser profissional. - Alongue-se para entrar no grupo e tire pulseiras e anéis. Na próxima você não assiste aula. - falei ríspida. Pulso firme, oras.
Apesar do senhor atrazildo, tudo correu super bem. Eu senti que os alunos saíram com a cabeça mais leve depois da aula, assim como eu sempre saia. Aquele sentimento era maravilhoso. Aos poucos, as pessoas se despediram. Menos Felipe.
-Parabéns, sua aula foi boa. - disse com aquele sorriso de sempre.
-Boa? - perguntei com um riso. - OkQ obrigada pelo elogio. - sinceramente, às vezes eu amava o meu sarcasmo.
Felipe deu um sorriso ainda mais irônico, se isso era possível, e me olhou. Eu odiava os olhos dele e o poder que tinham sobre mim. Vagarosamente ele foi se aproximando.
-Você se acha demais garota. - soltou, sem parar de andar. - Chega com a maior cara de santa, pede desculpas na frente de todos e age como se o mundo fosse seu. - fiquei estática com o que ele me disse. Tinha absoluta certeza de que eu não era assim, nem ao menos tinha notado os “outros” de que ele falava. Felipe não parou de andar até me prender contra a parede; aquele sorriso endiabrado em seus lábios.
-Você não me conhece. - contra-ataquei. - É só mais um dos imbecis que acham que sabem tudo sobre mim.
Então ele fez algo que me deixou realmente assustada. De forma lenta passou os dedos por meu pescoço até pegar o cordão que estava pendurado, puxando-o para revelar a pequena pedra de âmbar escondida em minha camisa.
-Eu vi isso quando te carreguei para o carro. Sempre me perguntei o que era esse volume debaixo de sua blusa e agora já sei. - minhas pernas tremeram. Ele me olhava de cima como se fosse superior em toda a sua altura, os olhos brilhando com a rara luz da sala, igual meu pequeno pingente que segurava nas mãos. - Deve ser de alguém especial para escondê-lo da vista de todos, Diana. Mas o que acontece se eu tirá-lo de você? - perguntou debochado. Toda raiva que já havia sentido dele não chegava nem a um décimo do que senti naquele momento.
-Eu te mato. - ameacei entredentes. Sentia que se ele realmente arrancasse aquele pingente de mim teria forças o suficiente para mata-lo. Ficamos um tempo em silêncio, ele com o sorriso e eu bufando. Até que o professor entrou na sala e perguntou o que estava acontecendo. Felipe tornou a me olhar, largando o cordão e passando gentilmente os dedos por minha bochecha. Murmurou um até logo e saiu da sala. Quase despenquei no chão. Eu usara todas as minhas forças para mantes a raiva que eu sentia e só não saí porque o professor me ajudou a sentar em uma cadeira, me trazendo água.
- Foi tão exaustiva a primeira aula? - perguntou rindo, depois que eu já estava melhor. Dei um sorriso e logo começamos a rir juntos.
-Certas pessoas são a bosta em pessoa. - respondi. - Aquele cara é um exemplo disso.
-Quer que eu cancele a matricula dele? - perguntou preocupado.
-Não, não precisa. - respondi sorrindo. - Eu sei tirar as bostas do meio do caminho.