quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Âmbar - Capítulo 15 - Final


Então, finalmente, me decidi. Claro que essa não era a maior decisão da minha vida, mas tinha um grande peso.
Era domingo e o dia amanhecera nublado (um mau presságio talvez?), com uma fina chuva caindo sobre a cidade. Acordei meio tarde, mas ainda continuei na cama pensando no que fazer, em como dizer com quem ficaria sem magoar o outro.
As horas passaram voando e, quando percebi, já era três da tarde. Vagarosamente me arrumei e olhei para a rua: o céu permanecia nublado, mas a chuva cessara completamente. Fiz uma prece silenciosa naquele momento, pedindo que nada viesse a dar errado. Eu precisava de todas as forças possíveis.
Saí de casa um tempo depois e fui andando até a casa de Felipe. Sem pressa, pois eu estava bem nervosa. O que mais me deixava com medo era a reação deles, se iriam me odiar eternamente ou se continuariam meus amigos. Apesar de tudo, eu não queria perde-los de jeito nenhum, entretanto a possibilidade era cada vez mais real.
Cheguei em frente a porta da casa e estanquei, paralisada. Todo o medo aflorou naquele momento e meus braços não se mexiam para apertar a campainha. Vozes na minha cabeça gritavam para eu correr e não fazer burrice. Dei meia volta para começar a correr sem rumo, quando a porta se abriu.
-Diana! - exclamou Felipe. - O que faz aqui?
Quis me enterrar naquele momento, eu realmente quis. Sorri e virei de volta, encarando Felipe.
-Oi. - disse com um sorriso trêmulo. - Vim aqui para... Conversar, sabe? - disse tentando não parecer tão idiota.
-Ah... - ele murmurou parecendo compreender. - Imagino o que seja... Bem, entre. Vou chamar o Thiago.
Todos os dias eu agradecia por Felipe não ser tão idiota e compreender meus devaneios. Sentei no sofá e esperei. Engraçado foi lembrar-me de Felipe me atacando no dia em que Thiago voltara, poucas semanas antes. Sorri com a lembrança...
Ele não demorou a voltar com Thiago e logo fiquei em pé. Dava pra sentir a tensão pairando no ar, as respirações meio ofegantes.
-Oi. - falei tentando melhorar o clima. Não adiantou, devo mencionar. - Tomei uma decisão. E a partir de hoje eu espero que possamos continuar sendo amigos. Essas semanas foram perfeitas e vocês são especiais... - minha mente gritava por ajuda, comecei a ficar mais trêmula. - Sei que demorei a decidir, mas eu estava com grandes dúvidas... Pelo amor de Deus! - exclamei. - Falem algo!
Felipe riu. Ele apenas deu uma daquelas risadas e continuou me olhando. Thiago quem tomou a palavra.
-Diana, nós respeitaremos sua decisão, por isso fique calmo, ok? Nós não vamos te trucidar.
-Ok. - falei retomando o controle. Alguns segundos se passaram enquanto olhava para os dois caras bem na minha frente. Fechei os olhos e respirei fundo antes de voltar a falar. - Thiago, vem comigo. - e andei até a porta. Naquele momento vi a decepção nos olhos de Felipe, que manteve o sorriso e se afastou, indo para outro cômodo da casa.

Thiago e eu andávamos calados no asfalto molhado. O caminho era conhecido: a praia. Ao chegar, sentei na areia e esperei ele fazer o mesmo. Só que continuou ao meu lado por uns minutos sem sentar, com uma expressão indefinível no rosto. Apenas esperei.
-Clima pesado. - ele disse e sentou.
-É complicado tudo isso. Magoar alguém nunca é uma coisa boa. - respondi ainda sem olhá-lo. O silencio pairou por mais alguns minutos quando resolvi falar novamente. - Eu te amo Thiago e sempre te amei, mesmo quando nós negávamos isso. E então você partiu e me deixou em pedaços. Daí Felipe apareceu. Querendo ou não, me ajudou a voltar a ser quem eu era. Engraçado que, no dia que você voltou, Felipe havia se declarado pra mim e fui até sua casa para dizer que te amava e por isso não poderia ficar com ele. A ironia é que se você tivesse aparecido no dia seguinte, não pensaria duas vezes e estaria com você. Mas sua volta, justamente naquele dia cheio de dúvidas, fez com que eu percebesse que também gostava do seu primo.
Dei uma pausa para olhar Thiago. Ainda não conseguia ver nenhum sentimento e seus olhos estavam fixos em mim. Continuei.
-Me desculpe. Apesar de te amar, quero ficar com Felipe. Ele me faz sentir toda a adrenalina da vida, eu me sinto completamente viva ao seu lado. - já não conseguia mais olhá-lo e foquei no horizonte. - Ah Thiago... Me perdoe mas preciso ficar com Felipe.
Não sei quanto tempo passou depois do que foi dito, somente continuei sentada, esperando alguma palavra ofensiva. Nada. Pelo canto dos olhos, vi que ele também encarava o horizonte.
-Vá. - falou num murmúrio, a voz meio embargada.
A chuva voltou a cair pesada sobre a cidade. Então levantei e corri. Acho que nunca corri tanto na minha vida e quando cheguei a casa de Felipe, já estava completamente molhada. Devo ter tocado a campainha milhões de vezes, mas ninguém me atendia. Comecei a me desesperar e andar de um lado para o outro. “Onde esse idiota se meteu?” pensava nervosa.
-Diana, você deve ser muito tapada por não sair de casa com um guarda-chuva  justamente hoje. - Felipe disse atrás de mim. Ele estava na calçada, debaixo de um guarda-chuva carregando uma sacola com cervejas. Não pude deixar de não sorrir.
-Ia se embebedar por que não te escolhi? - disse me aproximando. Ele olhou para a sacola e soltou aquele sorriso irônico junto de um “é”, dando de ombros.
-Acho que você deveria estar com Thiago, não? - falou se aproximando também.
-Não, eu deveria estar com você. - falei sorrindo. Felipe ainda continuou com aquele sorriso sarcástico e não pude deixar de rir alto. - Idiota. - xinguei e logo em seguida o abracei. Ele largou a sacola e o guarda-chuva e se molhou comigo.
-Você que é uma idiota... - ele disse, nos separando para logo em seguida segurar meu rosto e me beijar. - Acho que agora posso te chamar de “minha idiota”, não é? - e sorriu, dessa vez de felicidade, o sorriso que vi pouquíssimas vezes.
-Pode. - sorri também. - Você pode. - e o beijei de novo.

Aquela era a minha escolha. E eu estava extremamente feliz com ela. Se eu amava Felipe? Ainda não, mas aprenderia a amá-lo. Era só questão de tempo.

Fim.

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Âmbar - Capítulo 14


E duas semanas se passaram desde a conversa que tivera com Thiago e Felipe. Achei que eu não os veria de maneira mais íntima até me decidir e fiquei surpresa ao ser arrastada por Felipe até uma daquelas salas vazias e ser atacada na primeira semana. Ele me contou que fizera um acordo com o primo de não ficar comigo até que eu tomasse uma decisão. E então deve ter batido peso na consciência de Felipe, porque ele não me procurou mais. Imagine minha surpresa ao ver Thiago em frente a minha porta alguns dias depois. Esses dois não eram bons em cumprir promessas... E eu não ia recusar alguns beijos.
Passamos um tempo nos encontrando e saindo, os três sempre juntos. Aquele parecia um bom método para fazer com que eu escolhesse logo: conversávamos somente, era quase aquela fase de conhecer gente nova, a diferença era que eu já conhecia os dois há bastante tempo. Por um lado seria até interessante se no final de cada encontro a três não existisse aquela tensão vinda dos dois de “é hoje que ela escolhe!”. Não meus caros, não seria assim.
Claro que toda essa história estava na boca do povo fofoqueiro da escola e alguns  apelidos pejorativos sobre mim já circulavam. Os que me conheciam ainda me defendiam, mas depois de uns dias passei a não me importar. Como se eu fosse ligar para os comentários das mal-amadas de minha escola que não conseguiam a atenção de Felipe e Thiago. Apenas risos.
Em relação a minha decisão, eu sabia que já estava mais do que na hora de tomá-la. Duas semanas é muito tempo para se esperar, e eu tinha noção da aflição dos primos. Acho que já sabia quem eu escolheria desde o início de toda a confusão, mas eu queria ter plena certeza. Simplesmente não queria me arrepender e sabia que poderia fazer  uma má escolha, mesmo depois de análises e mais análises sobre isso.

Se eu estava numa enrascada? Oh sim. Numa bela, linda e maravilhosa enrascada. Assim é a vida, não é?

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Âmbar - Capítulo 13


No dia seguinte acordei feliz, apesar de toda a droga de confusão que havia me metido. Tinha os dois homens mais lindos da cidade apaixonados por mim, o que seria maravilhoso se eu também não estivesse apaixonada por eles. Sabia que teria que tomar uma decisão mais cedo do que queria, senão acabaria perdendo-os.
Fui para a aula e logo que entrei na sala, me deparei com Thiago e Felipe conversando seriamente. Sentei-me ao lado de Laura, que me olhou com certa preocupação.
-Já estou sabendo do que tá acontecendo... - disse.
-Desculpa, eu devia ter te contado... - suspirei, segurando minha cabeça com as duas mãos.
-Não se preocupe com isso... Bem, parece que você está numa bela enrascada só por essa expressão.
-Eu gosto dos dois... - murmurei.
-O quê? - Laura fez o favor de falar alto, chamando a atenção de todos na sala, que imediatamente ficou em silêncio. Eu vi a vergonha em seu rosto por ter virado o centro das atenções e pediu desculpas se aproximando de mim para se esconder. Não pude deixar de rir. - Como assim você gosta dos dois? Ficou maluca?
-Bem, se eu fiquei a culpa é do Thiago que ficou incomunicável e pediu pro Felipe “cuidar de mim”. - suspirei. - Nessas horas eu preferia ser maluca mesmo...
-Que história hein Diana...
-Eu bem sei. - sorri forçadamente. - E agora os dois estão conversando, sendo que ontem nem se falavam. Boa coisa não é...
-Nunca estive numa situação assim, então não posso ajudar muito, mas você sabe que pode contar comigo pra qualquer coisa. - sua mão afagou meu braço e eu não pude ficar sem sorrir de volta. Agradeci por ter uma amiga como Laura, apesar de ultimamente ter deixado-a de lado.
O assunto se encerrou após o professor entrar na sala e quando todos ficaram em silêncio. Olhei para trás e me senti fuzilada por ter dois pares de olhos cor de âmbar me encarando. Suspirei por me sentir mais ferrada do que já estava, se era possível.

As aulas terminaram e meio que me senti obrigada a sair correndo. Nunca tinha faltado uma aula de teatro e aquela não seria a primeira vez. Quando estava terminando meu almoço, Thiago e Felipe se aproximaram de minha mesa. Felipe sentou-se imediatamente ao meu lado e Thiago permaneceu ainda em pé. Olhei para os dois, receosa.
-Precisamos conversar. - Felipe disse.
-Bem... - falei limpando os lábios com um guardanapo e me aconchegando na cadeira. Olhei para Thiago ainda em pé. - Pode sentar se quiser, ainda tem cadeiras nessa mesa. - ele agradeceu e sentou. Não pude deixar de sorrir ao perceber mais uma diferença entre os dois: Thiago muito educado e Felipe um completo cara de pau.
-Nós precisamos ter uma conversa séria, Diana. - Thiago disse, fitando-me com os olhos que eu tanto amava.
-Bem, antes que comecemos acho melhor nos encontrarmos mais tarde, afinal não vou faltar minhas aulas extras por causa dos dois. Minha aula de teatro termina daqui a duas horas, podemos nos encontrar em algum lugar.
-Por mim tudo bem. - Felipe concordou. - Só escolha o lugar. - vi Thiago concordar e pensei um pouco.
-O barzinho perto da praia. - falei. - Todos conhecem. - os dois concordaram e em seguida me levantei para ir embora. Ainda olhei para trás por alguns segundos e vi um olhar preocupado vindo dos dois. Por um momento senti medo de perdê-los. Eu ainda não tinha me decidido.

Acho que nunca corri tanto na minha vida. E acho que nunca me senti tão nervosa. Não sabia o que eles queriam comigo e, devido as caras sérias que vi o dia todo, sabia que não era algo bom. Cheguei no barzinho e vi os dois em pé, num tipo de varanda que dava para o mar. Ver os dois juntos, rindo de alguma cosa, me deixou mais desconfortável do que já estava. Senti que minha decisão separaria os primos de alguma maneira. Me senti a “destruidora de lares”. Respirei fundo e me aproximei.
-Oi meninos. - disse usando minhas habilidades de atriz para parecer menos nervosa. Eles me responderam abandonando o sorriso e eu respirei fundo. - Bem, por que estamos aqui? - perguntei.
-Porque precisamos definir o que está acontecendo. - falou Thiago. - Concordamos que não podemos continuar assim. - disse apontando para o primo. Olhei para Felipe que concordou com um sorriso meio irônico. Nem nesses momentos ele deixava de ser um idiota.
-Precisamos de algo concreto. - disse Felipe.
Suspirei. Como aquilo era difícil, meu Deus! Me apoiei no batente da varanda e olhei para o mar, admirando o silêncio e a paisagem durante alguns segundos.
-Gosto de vocês. É complicado dizer o que sinto, realmente complicado. Mas os dois são especiais, cada um com seus defeitos e qualidades e foi justamente isso que fez com que me interessasse. Só não posso escolher, não consigo. Então não me peçam isso, pelo menos não agora, não aqui. Vamos aproveitar esse momento sem culpa, sem pensar no que poderia acontecer ou não. Porque, como já disse, estou afim dos dois. O que nós vamos fazer? Não sei... Ainda não sei. - falei sem tirar os olhos do horizonte.
Ficamos os três em silêncio, até que peguei a garrafa de Felipe para tomar um gole e depois a de Thiago. Rimos.

Senti minha cabeça mais leve após dizer todas aquelas palavras que se amontoaram em minha mente. E mais leve ainda por ver os dois me tratando como se fossemos amigos de longa data, sem nenhum problema a ser resolvido. A verdade apenas se escondera debaixo do tapete naquele momento.